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Filhos e netos de nazistas relatam trauma de lidar com passado

Para os alemães que trazem na assinatura sobrenomes como Himmler, Goering e Goeth, que pertenceram a infames membros do Partido Nazista, a Segunda Guerra Mundial é ainda um assunto rodeado de traumas e um período obscuro nas memórias de família.
Rainer Hoess só foi ao campo de concentração de Auschwitz, na Alemanha, aos 40 anos de idade.
Rainer Hoess é neto de Rudolf Hoess (que não deve ser confundido com o vice-líder nazista Rudolf Hess), primeiro comandante do campo de concentração de Auschwitz. Seu pai cresceu em uma vila anexa ao campo a pouca distância das câmaras de gás, onde brincava, juntamente com os irmãos, com brinquedos fabricados pelos prisioneiros.

Rainer se lembra quando sua mãe lhe mostrou, quando ainda era criança, um baú à prova de fogo, com uma grande suástica na tampa. No baú, muitas fotos de família mostrando seu pai, ainda criança, brincando com os irmãos nos jardins da casa onde moravam.
A avó de Rainer pedia aos filhos que lavassem os morangos que comiam. As frutas eram cultivadas no campo e, segundo a avó de Rainer, tinham o cheiro das cinzas dos fornos de Auschwitz.
"É difícil explicar a culpa, mesmo que não exista razão de eu sentir culpa. Mas ainda carrego isso, carrego a culpa em minha mente", contou Rainer Hoess. "Também sinto vergonha, é claro, pelo que minha família, meu avô fez a milhares de outras famílias." O pai, filho de Rudolf Hoess, nunca abandonou a ideologia nazista e Rainer perdeu o contato com ele.
Visita
Foi apenas depois dos 40 anos que ele finalmente visitou Auschwitz, para enfrentar "a realidade do horror e das mentiras que tive todos esses anos em minha família". Ao ver a casa onde o pai passou a infância, Rainer conseguia apenas repetir a palavra "insanidade" e, no centro de visitantes, encontrou-se com descendentes das vítimas de Auschwitz.
Muitos deles choraram ao contar suas histórias, e uma jovem israelense não conseguia acreditar que Rainer tinha ido até o campo para falar com eles. Enquanto ele falava de sua culpa e vergonha, um sobrevivente disse a Rainer que os parentes dos nazistas não devem ser culpados pelas atrocidades.
"Receber a aprovação de alguém que sobreviveu àqueles horrores e saber com certeza que não foi você, que você não fez aquilo. Pela primeira vez você não sente o medo ou vergonha, mas felicidade, alegria", disse.
Livro
Katrin Himmler resolveu escrever um livro para lidar com a culpa de ter Heinrich Himmler em sua família. Himmler, um dos arquitetos do Holocausto, era tio-avô de Katrin. O avô e outro irmão também eram membros do Partido Nazista. "É um fardo muito pesado ter alguém como ele na família, tão próximo. É algo que fica com você", disse.
Kathrin Himmler decidiu escrever um livro para lidar com a história nazista de seus antepassados
Ela escreveu o livro The Himmler Brothers: A German Family History ("Os Irmãos Himmler: História de uma Família Alemã", em tradução livre), em uma tentativa de "trazer algo positivo" para o nome Himmler. "Tentei da melhor forma me distanciar disso, enfrentar de forma crítica. Não preciso mais ficar envergonhada dessa conexão de família."
Para Katrin, os descendentes de criminosos de guerra nazistas parecem ter duas opções extremas. "A maioria decide cortar totalmente a relação com os pais, para que possam tocar suas vidas, para que a história não os destrua. Ou então optam pela lealdade e amor incondicionais e limpam todas as coisas negativas."
Ela mesma pensou que tinha um bom relacionamento com o pai até que decidiu pesquisar o passado da família. Ele tinha muita dificuldade em falar do passado. "Só entendi como era difícil para ele quando percebi o quanto era difícil para mim aceitar que minha própria avó era uma nazista."
"Eu a amava muito, (...) foi muito difícil quando encontrei as cartas dela e descobri que mantinha contato com os velhos nazistas e que ela enviou uma correspondência para um criminoso de guerra condenado à morte. Me deixou doente."
'Lista de Schindler'
Monika Hertwig é filha de Amon Goeth, o comandante sádico do campo de concentração de Plastow, interpretado pelo ator britânico Ralph Fiennes no filme "A Lista de Schindler", de Steven Spielberg. Ela era apenas um bebê quando Goeth foi julgado e condenado à morte.
Monika Hetwig chegou a ser chicoteada com um fio elétrico na adolescência ao questionar seu passado
Monika foi criada pela mãe e, durante a infância, tinha uma visão distorcida do que acontecia em Plastow. "Eu tinha essa imagem que criei (que) os judeus em Plastow e Amon eram uma família."
Quando era adolescente, ela questionou a mãe e foi chicoteada com um fio elétrico. Apenas quando assistiu ao filme de Spielberg, Monika soube de todo o horror causado por seu pai e contou que "foi como ser atingida".
"Pensava que isso (o filme) tinha de parar, em algum momento eles têm de parar de atirar, pois, se não pararem, vou enlouquecer aqui dentro deste cinema." Ela saiu do cinema em choque.
Esterilização
Já Bettina Goering, sobrinha-neta de Hermann Goering, o primeiro na linha de poder do Partido Nazista depois de Adolf Hitler, optou por uma medida bem mais drástica para lidar com o legado de sua família. Ela e o irmão optaram pela esterilização.
"Nós dois fizemos, para que não existam mais Goerings. Quando meu irmão fez, ele me disse: 'Cortei a linha'", explicou Bettina.
Perturbada pela semelhança com o tio-avô, ela deixou a Alemanha há mais de 30 anos e agora vive em um local remoto do Estado americano do Novo México. "É mais fácil lidar com o passado de minha família à distância", disse.

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